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Poemas concretos

  

Ampulheta

 Miguel Rodrigues

Cai a areia da ampulheta que atravessa

Um curto espaço, mas cai sem pressa

A cada segundo e o tempo passa

Sem parar e quando se vê

Tudo já passou

Sem perceber

E agora cai

Grão

Por

Grão

Na ampulheta.

É virada para cima

Para começar outra vez

Mas agora será diferente

É um novo tempo, é o recomeço

Novas ações e atitudes serão tomadas

E enquanto isso a areia vai caindo sem pressa.

 

 

 

...........................         ....

Eu, col(cheia)...

 

Rubia Pereira Gaissler

 

   

                                             e

..........................      . i

....................        .s.a.f

..................      o.r.m

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....m.o.q.u

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..i.t.o.e.d.u

....    ..r.m.o .......

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Haicais

  

Lunar
Fernando Ramires
 A lua crescente

É lua nova, mas cheia

De sonhos minguados

 

 

***

Franciela Silva
 

Caminho depressa,

Mas ela chega primeiro -

Chuva de verão.

 

  

 

***

Enos de Souza
 

A árvore deita

sementes na terra seca

quantas nascerão?

 

 

 

***

Nazareth Bizutti
 

Estrela contida

em fenda de longínquo azul

veste-se de nuvem

 

 

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Sonetos

 

SONETO I

Edson Rossatto
 

Acho mais formoso o cacho que o liso

E o riso, tão singelo quanto belo,

Afaga minha alma, cria um elo,

Abranda minha ira, leva o siso.

 

Quisera ter poder de recusar

Serviço, mas o viço, estampado

Na íris, seduz; deixa em estado

De luz, quem a deveria denegar.

 

Às vezes, penso no tempo em que passo

Sem vê-la. Porém, pela correnteza,

Creio, haverá sempre um meio, um laço,

 

Um ardil, próprio ou vil, dando a certeza

Ao poeta de gentileza e traço

Pueril o sorriso pela beleza.

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Contos

 

Moça do piano

Giordana Medeiros

 

Era um fim de tarde de inverno. O céu estava como numa pintura ou numa poesia. A junção de cores, o vermelho e o azul, o sol escondendo-se no horizonte, o despontar da noite, davam àquele pôr do sol o tom melancólico que inspirava os poetas e trazia tristeza ao coração dos solitários.

Eu estava a caminhar pela cidade. Tinha esse hábito de passear sem destino certo, somente para observar as pessoas. Às vezes, colocava-as em meus contos. As pessoas comuns são uma fonte inesgotável de histórias. O povo tem suas próprias condutas e costumes tão pitorescos que tornam os seres humanos belos, singulares e intrigantes. Eu analisava os passantes, seus trejeitos, como se comportavam, e guardava na memória o que poderia ser objeto de uma história interessante.

Naquele dia, entrei por uma rua desconhecida da cidade, onde jamais havia estado. Meninos jogavam futebol, mulheres estendiam as roupas lavadas no varal. Homens conversavam sentados frente às casas e, no fim da rua, um grupo de velhos jogava dominó alegremente. Eu já estava fatigado e pretendia voltar para casa, quando ouvi a linda melodia de um piano. O som era triste, e podia fazer um coração apaixonado chorar. Eu segui o som sem atentar para as pessoas da rua. Pretendia ver quem tirava aquelas notas tão tristes ao piano. Imaginei logo uma linda garota, de cabelos longos, castanhos e cacheados, de uma tez branca, com lágrimas a brotar de seus olhos castanhos amendoados. Via-lhe com um vestido florido que deixava à mostra seu colo alvo. Apaixonava-me por ela. Imaginava-a linda em sua silhueta fina frente ao piano, o que me inspirou a escrever sobre ela. Criava a história em minha mente, a história de um jovem casal apaixonado, separados pela vida, mas unidos pelo amor. Ela chorava enquanto tocava ao piano a triste música que compôs para seu amado. Nunca o esquecera e, à distância, se correspondiam. Ela mandava as cifras e as letras das músicas que compunha para seu amado pelo correio. Ele, ao receber a correspondência, lia as músicas e imaginava-as tocadas por sua amada. A música do piano embalava o romance dos dois. Faziam juras de amor e suas cartas tinham as marcas das lágrimas que choravam. Eu me aproximei mais da janela do sobrado de onde vinha a melodia doce e triste do piano.

Os passantes ouviam a música, olhavam em direção à janela e prosseguiam no seu caminho. Só eu permanecia estático, extasiado por aquela música. Imaginava agora o reencontro dos dois, os abraços e beijos trocados, a saudade que sentiam sendo transformada em carícias e como eles se amariam naquele dia.

Senti uma ponta de ciúmes. Queria ser eu na posição do amante daquela garota. Eu a amava pela canção, amava todas as partes de seu corpo que compunha em minha mente. Imaginava seus pés finos e pequenos, suas coxas roliças, seus seios sob o vestido. Seu nariz pequenininho e belo, compunha uma verdadeira Vênus em minha mente. E me apaixonava perdidamente pela moça ao piano. Imaginava-me duelando com o rapaz para quem ela criara aquela canção. Senti a bala transpassando meu peito. Uma morte poética. Que destino lindo, morrer de amor! Via-a agora de negro, chorando minha morte. A canção agora que compusera era para mim. Ela chorava minha morte ao piano, por isso a canção era tão triste. Uma lágrima escorreu pela minha face.

De súbito, uma das senhoras que estendiam roupas no varal aproximou-se de mim:

- Linda a música, não? Ela toca todas as tardes até o início da noite. Eu adoro escutar Dona Clarice ao piano. Essa música que ela toca insistentemente ela compôs para o seu falecido marido. Eles se amavam muito. Depois que ele se foi, ela nunca mais se casou com outro homem e toda tarde ela toca a música que fez para ele.

A música parou e eu pressenti que finalmente teria a visão de quem compusera a música que tinha sido o alimento de minha imaginação tão fértil. Na janela, apareceu uma velha senhora com cabelos alvos e cuja feição demonstrava que tinha sido muito bela quando jovem. Seus cabelos estavam presos num coque no alto da cabeça. Senti tristeza nos seus olhos ao fechar a janela.

Dirigi-me à senhora que estava ao meu lado e confirmei:

- Com certeza, é uma belíssima canção. Faz-nos imaginar como eles tinham se amado. Ela deve sentir muitas saudades...

A senhora sorriu e continuou a estender a roupa.

Eu continuei meu caminho de retorno para casa com a sensação de ter perdido um grande amor naquele dia. A música que escutara àquela tarde ainda estava em minha mente, bem como a moça que imaginara ao piano. Pensei ainda na senhora que apareceu para fechar a janela, e uma linda história de amor nascera em minha mente. História que agora escrevo frente ao meu computador. História que poucos lerão e perceberão a sutil beleza do amor que senti pela compositora daquela triste canção que ouvi num fim de tarde de inverno.

 

 

 

 

Café com Deus

Alexandre de Paula Bicudo

 

- Ah... Se Deus viesse passar minha roupa, eu faria um bolo para comermos tomando café – sonhou Aline em voz alta, lamentando-se pelas pilhas de roupas no quarto de se trocar.

Apesar de estarem para completar dez anos de relacionamento, e de viverem juntos quase todo esse tempo, há apenas um ano ela e o esposo conquistaram seu sonho de comprar um apartamento.

Trabalha de segunda à sexta, de manhã até a noite. Ainda assim, consegue manter a casa em ordem, sem falar que cozinha como poucas cozinheiras o fariam.

E de que sabor seria esse bolo?

De cenoura com cobertura de chocolate... é de caixinha, mas é uma delícia – pensou

Uh... Adoro bolo de cenoura com cobertura de chocolate, mas você poderia deixar um pedaço sem cobertura pra mim, por que eu também gosto com manteiga – de novo a voz, em sua cabeça, negociava.

Aline parou de organizar os montes de roupas que estavam empilhadas, prontas para serem passadas. No entanto, ela estava sem coragem.

Saiu do quarto pelo corredor, em direção à sala. Quando lá chegou, soltou um grito de susto, dando um passo para trás, apoiando-se na parede.

- Quem é você? O que você está fazendo na minha sala?

Um senhor de cabelos brancos como algodão, com a barba bem cortada, da mesma cor, se destacava em seu terno alvo, sentado no sofá vermelho-sangue.

- O que foi minha filha? – perguntou o senhor, levantando-se – Você me chamou, me fez uma oferta, eu negociei. Agora você se assusta?

- Chamei?

Deu outro passo atrás, enquanto o senhor de gravata laranja, que no fundo passava-lhe serenidade, se aproximava.

- Sim, eu vou passar sua roupa, mas eu quero um bolo de cenoura, com metade coberta de chocolate e metade sem cobertura.

- Você é Deus?

Estava se achando ridícula, como também era a sua pergunta.

- Sim, só que eu não tenho documento. Você tem fé?

- Tenho, mas...

- Vamos lá, nós podemos conversar enquanto você assa o bolo.

Aline não soube o motivo, mas, mesmo meio confusa, começou a preparar o bolo para aquele simpático senhor.

Enquanto, desconfiada, preparava a massa do bolo, Deus olhava para os enfeites de geladeira sorrindo. Reparou em vários potes de pimenta, escolheu um, abriu, e sentiu seu aroma.

- É dedo de moça, com cebola e alho picado, no azeite Italiano, que delícia. É sua?

- Não, é do meu marido. O Alê adora pimenta.

- Onde ele está agora? – perguntou, apanhando um galão de vinho tinto que estava entre a geladeira e a pia.

- Empinando pipa com meu irmão mais novo. – respondeu, achando que Deus deveria saber.

- É, eu sei. Você fez muito bem cuidando dele, depois que sua mãe veio morar comigo. O Arthur realmente era muito pequeno e precisava de uma atenção especial.

Quando Deus terminou de falar, pegou uma taça já cheia de vinho e deu um grande gole. Aline, que estava pegando o pó para coar o café, olhou-o, com o nariz avermelhado e os olhos lacrimejantes.

- Belo vinho você tem aqui.

- É do Sul. – resumiu Aline, ainda abalada por lembrar de Dona Cida, sua mãe.

Por alguns segundos, houve um silêncio, mas não incômodo.

- Seu marido te faz feliz?

- Não sei.

- Você não sabe se ele é bom ou não para você?

- Sei. Ele é bom, mas, às vezes, ele me irrita.

- Ah sim, isso é apenas um aprendizado. Um relacionamento é como pegar duas peças que não se encaixam e moldá-las com amor até que fiquem perfeitas.

- Só que isso leva tanto tempo que, quando a gente se encaixar, já estaremos velhos e morreremos.

- Mas a vida não se acaba, apenas se renova. Quando vocês passarem desse estágio, haverá outros. A evolução até mim não termina aqui. – disse Deus sorrindo – E, afinal, quando vocês vão ter filhos? Fiquei sabendo que vocês querem um casal.

- O Alexandre quer, mas eu tenho medo da gravidez. – disse, já arrumando a mesa.

- Que bobeira, menina, eu estarei aqui sempre que você precisar, e me chamar.

- Eu acredito. – disse Aline, finalmente sorrindo.

Sentaram-se à mesa, apreciaram um bolo quentinho e um café fresquinho. Aline, àquela hora, já nem se lembrava da desconfiança.

- Estava maravilhoso, comi tanto que nem falei, mesmo porque vocês dizem que falar de boca cheia é falta de educação. – brincou Deus.

- Ah é? Isso porque o senhor não conhece o Alê.

- Ah minha filha, conheço, e se conheço...

O sol quase se escondia, quando eles se sentaram no sofá.

- Sabe quando a gente sente dor? Não importa o porquê, mas dói. E, pelo que eu vejo, uma das maiores dores da humanidade é a perda. Quando vocês, por qualquer motivo, perdem algo ou alguém que amam muito, vocês sofrem. E da dor, da mais cruel das guerras, até a dor mais insignificante, como a mãe chamando-lhes a atenção, eu sinto, sinto cada dor, de cada ser humano. Vocês são parte de mim.

- Por isso que, quando eu senti a dor de uma criança de dezessete anos, chorando por muito amar, achando que morreria, e que nunca mais amaria tanto quanto amou, resolvi colocá-la em sua vida, para mostrar a ele o que é o verdadeiro amor. Duas pessoas opostas, que estão se encaixando cada vez melhor, e se apoiando a cada dia, apesar de todas as dificuldades.

Deus olhou, com afeto para Aline, que estava dormindo serenamente ao seu lado.

- Eu sei que você me entendeu, e obrigado por sempre me deixar entrar em seu lar e em seu coração.

Aline despertou com o barulho na porta da sala, e com as vozes do esposo e do irmão, falando das laças de pipas que tiveram durante o dia.

Ela se levantou pensando que loucura de sonho tivera. Sonho, pois não poderia ter sido verdade, que havia tomado café com Deus. Em seu sonho, ela havia adormecido no sofá, e acordou na cama.

Sentia-se estranhamente bem e, quando passou pela porta do quarto de se trocar, reparou que toda a roupa estava passada e dobrada, em cima da tábua de passar e em mais três cadeiras. Quem havia passado toda sua roupa?

As vozes de Arthur e Alexandre desviaram seu pensamento, ela foi até a sala, onde eles estavam falando alto, sorrindo, comendo bolo de cenoura e tomando café.

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Crônicas

  

Os atores principais

Tuka Pereira

Se existe algo realmente justo é o fato de sermos os atores principais de nossas vidas. O lugar central onde o holofote foca é nosso, a trilha sonora mais bonita é nossa, o mocinho lindo com cara de sonso é nosso, as injustiças cometidas pelos vilões são conosco. O núcleo principal da novela sem Lurdinha ou Tião, a melhor atriz ou ator que não é nem Naomi Watts, nem Jamie Foxx. Direção independente longe de ser de Andrucha Waddington ou Sophia Coppola.

Nós por nós mesmos - o que somos. Sem a maquiagem reboque que nos disfarçaria as olheiras, espinhas e manchas de sol. Sem o batom que nos daria a boca de Angelina ou Daniela. Sem o rímel que nos transformaria em uma Twiggy tupiniquim.

Nós, cara a cara, com nosso mais profundo eu. A única pessoa em todo mundo que esteve ali conosco no primeiro golpe de ar que recebemos e estará no último.

Daí se agregam mais pessoas. Os coadjuvantes: o amor de nossa vida, a família, nossos bichos de estimação, os amigos de verdade e os colegas de trabalho. Os convidados especiais (que farão apenas uma participação de impacto): todos os amores perdidos no tempo, os amigos esquecidos no decorrer do caminho e os vilões momentâneos que nos farão sofrer por algum período. Os figurantes: todos aqueles que nem sabemos que existem, mas que, ainda assim, estão na mesma fila do banco, no mesmo mercado e na mesma festa. E, claro, o pessoal da equipe técnica: responsável por tudo o que vai aparecer de imprevisto em nossos passos (que nem sempre serão efeitos especiais), a chuva bem no dia da planejada praia, o pneu furado em plena rodovia, a visita surpresa no meio da trepada fenomenal, o telefone inconveniente na hora mais legal do filme.

Nossa história, sabiamente, inicia todos os dias sem que ninguém precise gritar luz, câmera, ação! Pois, mesmo que esteja escuro, trovejando, caindo raios, e que fiquemos por horas sentados olhando para uma parede branca, o enredo segue. Não tem pausa para retoques, não tem continuístas assessorando, não tem encaixe de texto, não tem chilique de estrelismo que pare a gravação. Tudo segue de improviso mesmo e, como grandes atores que somos, tiramos tudo de letra.

Seguimos contornando o orçamento baixo, o figurino nem tão perfeito, o gênero que varia de drama à comédia - passando facilmente por terror e pastelão, com roteiro nonsense, uma produção mixuruca e edição inexistente.

Lá vamos nós, fazendo papel de estrela do nosso espetáculo, coadjuvantes em outros, convidados especiais em tantos, figurantes em muitos e equipe técnica de alguns.

E tudo vale, menos: cutucão no olho, puxar cabelo, namorar ex de amigo ou amiga, odiar pai e mãe, trair quem confia em nós e, PRINCIPALMENTE: não vale sermos coadjuvantes de nossas próprias vidas, pois, deixar a vida nos levar, só dá certo em pagode, e olhe lá.

 

Comida Feia

David Castillo

 

Hoje uma pergunta não me sai da cabeça: por que será que comida de regime é tão feia? Esta pergunta começou a me atormentar lá pelas treze horas, quando encarei meu almoço frente a frente. O que vi me deu pena de mim mesmo.

Umas duas colheres de arroz, pálido de tão branquinho. O problema não é este, afinal de contas, o arroz tem que ser branquinho mesmo. Mas ele tem que se colocar na posição dele, a de coadjuvante do prato. Quando o arroz é o protagonista, aí é que está o problema! Nada pior do que olhar para o prato de comida e o que parece ser mais apetitoso é justamente o arroz. Acompanhando o arroz veio um bife quase irreconhecível, sei que era bife por que tinha uma plaquinha junto dele escrito isto é bife!, por aí você já sente o drama! O tal do bife que, em outros tempos, era o protagonista do meu almoço, agora não é nem sombra do que foi um dia, parece um bife em final de carreira, deprimido, irreconhecível. Acho que é uma baita sacanagem matar uma vaca pra fazer um bife daquele. Magro, seco, estirado no meio do prato. Frito sem óleo, manteiga e nenhuma, mas nenhuma gordurinha, ou seja, deixou de ser bife. Pobre vaca, morreu em vão!

Acompanhado do tal pedaço inanimado de vaca esturricado no meu prato, vinham duas batatas de porte médio. Não assadas, gratinadas, ou fritas, mas sim cozidas, sem sal, só a batata mesmo. Batata e água quente, vinte minutos no fogo e está pronta! Eu nunca tinha reparado na cor, no formato e no cheiro da batata, mas, hoje, observando-as no meu prato, deu pra conhecê-las melhor. Tadinhas! Elas estavam tão constrangidas, se sentindo nuas, sem nem mesmo uma salsinha pra disfarçar. Era a batata no seu estado quase natural. Descobri que batata não tem gosto, é um tubérculo sem identidade, uma usurpadora do sabor alheio, talvez por isso estivesse tão envergonhada, seu segredo acabou, ao menos para mim. A batata é uma falsária, duvido que quem conhecê-la da maneira que eu a encontrei hoje continue a admirá-la. E pensar que, um dia, ela já foi um dos meus alimentos preferidos. Hoje seu reinado caiu por terra na minha vida. Comi só por consideração aos anos de convivência quase diária.

Pra completar o banquete, salada à vontade. Mas sem azeite, vinagre, sal... ou seja, mato lavado, à vontade!

Se eu quisesse, poderia comer um ovo cozido, que legal! Pra quem gosta de ovo, deve ser uma maravilha, mas, pra mim, que detesto ovo por questões ideológicas... preferi substituir o ovo por uma batata a mais, isso fez com que as duas batatas no meu prato sorrissem aliviadas, entendendo aquela escolha como uma possível reconciliação... mas sei lá, elas me magoaram muito com toda aquela mentira.

Nunca comi tão rápido, queria me ver distante daquele almoço o mais breve possível. Descobri que o que faz efeito em um regime não é comer menos, mas é comer feio! Por isso, quando vir um alimento pálido, sem cheiro, sem vida... pode comer que não engorda. Agora comidas bonitas... corra delas. Alguém coloca em questão a beleza de uma lazanha? Ou o colorido alegre de uma boa bacalhoada? Ou ainda o contraste do preto e branco da feijoada, junto com o verde e amarelo da couve com farofa? Salada de maionese, com bloquinhos de vegetais verdes, laranjas, roxos, amarelos? Para beber algo bem borbulhante, cheio de vida, colarinho branco! O suco de laranja que eu tomei hoje estava em estado terminal! Quando olhei pra ele antes de bebê-lo de uma só vez, ele olhou pra mim e com a voz embargada e os olhinhos fechando ele balbuciou: Açúcar... por favor.

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Microcontos

 

Flerte

Paulo Gonçalves

 

Desde seu último divórcio, Beatriz preferia paquerar os mais moços, não obstante os inconvenientes. Dos jovens era de se esperar uma certa impetuosidade, além dos atributos desejados. Maurício, no entanto, era um espécime raro, muito educado.

– Aceita mais uma taça de vinho? - Perguntou, com notável delicadeza.

– Ah! Sim, por favor... - Respondeu, encabulada.

Tão logo o garçom deixou a mesa, Beatriz sentiu-se profundamente sozinha. Talvez tivesse exagerado no vinho. Não sabia ao certo.

 

 

Tarde demais

Katia Ceregatto

 

Não se viram mais que alguns minutos no jardim da matriz. Sintonizaram-se de imediato; gostavam de vinho tinto, Wim Wenders e andar na chuva. O sonho dela: navegar. O dele, construir uma nau. Emocionaram-se comentando a morte dos albatrozes. Poderiam viver juntos para sempre. Ele ajeitou o cravo na lapela e foi para a igreja, esperar a noiva; ela ajeitou o uniforme e foi para o salão de festas esperar os convidados.

 

Azar no jogo...
Carlos Renato Arfelli

 

Droga! Perdi de novo! Não se conformava. Perdera quase todos os bens no pôquer. Sua esposa, em vez de censurá-lo, acalmava-o: Azar no jogo, sorte no amor! Da herança do avô, pouco restara. Ainda viro esse jogo! Não desistia. Ele tinha de vencer, ia vencer, era óbvio! Matematicamente falando, a probabilidade de continuar perdendo era cada vez mais remota. Não agüentava mais! Azar no jogo, sorte no amor, bah! Foi quando teve a idéia. Segurando uma faca, esperou a esposa. Boa noite, querida... e adeus! Permitiu-se um sorriso. Azar no amor... E sua risada histérica ecoou pela noite.

 

 

Pupilas gustativas
Renan Nuernberger

 

Sempre a desejou. Observava pelas praias e calçadas o rebolado ritmado, acompanhava por onde fosse o bumbum torneado, espiava indiscretamente pelo decote os belos peitos, umedecia seus lábios ao ler os dela. Sempre a desejou em segredo. Os amigos desconfiavam. A família nunca supôs. Não era amor - nunca confundiu. Sempre e somente a desejou. E agora estava sozinho com ela. Somente ele e a mulher dos sonhos. Fingindo uma experiência que não tinha, conduziu-a até seu quarto e, com calma e segurança, a despiu, página por página.

 

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